1º PMB – 1988 – Vinícius de Moraes

Vinícius de Moraes

Em 66 anos de vida, Vinicius de Moraes foi muitos e único.

Poeta, diplomata, jornalista, crítico de cinema, compositor, cantor, bon vivant, carioca da gema e cosmopolita, o “branco mais preto do Brasil”, com sua lírica natural e inovadora, virou uma referencia para a canção popular brasileira moderna.

O encontro em 1965 com Tom Jobim, então o jovem compositor escalado para musicar a peça Orfeu da Conceição e dois anos depois o seu parceiro e arranjador no disco de Elizabeth Cardoso Canção do amor demais, foi fundamental para o surgimento da bossa nova.

No entanto, em termos de estilo, a produção musical de Vinicius é muito maior e abrangente. Começa antes de Jobim (nos anos 1930, escreveu suas primeiras letras para músicas dos irmãos Haroldo e Paulo Tapajós) e prossegue influente com tantos outros parceiros, como Carlos Lyra, Moacir Santos, Adoniran Barbosa, Baden Powell (com quem, no início dos anos 1960, fez a série de afro-sambas que abriu novas vertentes para a MPB ao utilizar ritmos e temas do candomblé), Edu Lobos, Francis Hime, Chico Buarque e Toquinho (este, também companheiro nos palcos da última e intensa década de vida). A obra musical de Vinicius e parceiros é enorme, clássicos que continuam sendo cantados, gravados e regravados por centenas de intérpretes no Brasil e mundo afora, incluindo as canções com letra e música apenas dele, como “Serenata do adeus” e “Medo de amar” – ambas lançadas no seminal disco de Elizeth Cardoso, em 1958.

Ao trocar a poesia pela música popular, Vinicius foi questionado por alguns de seus colegas das letras, que torciam o nariz para aquela atividade “menor”. Em 1969, perdeu o posto no Itamaraty por não se alinhar ao regime militar que desgovernava o país desde 1964. No entanto, vida e obra provaram que ele tinha feito as escolhas certas.
No século XXI, Vinicius não para de encantar, cada vez mais presente e influente. Seja na música ou na poesia (redescoberta nos últimos anos), passou ao largo das disputas estéticas e ideológicas que marcaram o setor entre as décadas de 1950 e 1970 e se impôs por sua força lírica.

“Existiria a verdade
Verdade que ninguém vê
Se todos fossem no mundo iguais a você”

2º PMB – 1989 – Dorival Caymmi

Dorival Caymmi

Um dos inventores da Bahia como a conhecemos, Dorival Caymmi também foi um dos mestres fundadores da canção popular brasileira moderna. Com seu rigor, lapidando cada composição até chegar ao formato ideal, criou clássicos instantâneos, que desde então têm disso gravados e regravados. Também acenou com novos caminhos estilísticos, que primam pela aparente simplicidade e, entre outros feitos, estabeleceram as bases para o surgimento da bossa nova.

A partir de Carmen Miranda, que em 1939 gravou “O que é que a baiana tem?” no filme Banana da terra, a sua obra caiu no gosto do público e foi adotada por dezenas de cantores, mas o próprio Caymmi, ao violão, é o melhor e mais rigoroso intérprete de suas músicas. Algo que pode ser comprovado nos discos que gravou a partir dos anos 1950, incluindo Caymmi e seu violão (1959) e Eu não tenho onde morar (1961).

Além da série de canções praieiras e dos retratos de personagens típicos ligados à infância e à adolescência em Salvador, Caymmi escreveu sofisticando sambas-canções nos quais fundiu sua baianidade com a carioquice que adquiriu instantaneamente ao se radicar no Rio em 1938. A canção popular sempre foi seu meio de expressão, mas Caymmi também era um apaixonado pela música clássica, especialmente pelos compositores do período impressionista, como Claude Debussy, influência que pode ser observada no tema “Sargaço mar”.

Valsas, modinhas, temas do folclore, sambas e cânticos da religiosidade afro-baiana, que, pioneiramente, incorporou aos seus temas, também estiveram no balaio de referências do compositor, cantor e violonista. A partir dessas fontes tão diversas, criou um estilo original, único e atemporal.

Homenageado no 2o Prêmio da Música Brasileira, em 1989, então aos 75 anos, Caymmi manteve-se em atividade até perto do fim da vida, em agosto de 2008. Além das canções que deixou, passou o bastão musical para os três filhos, a cantora Nana e os também compositores Dori e Danilo.

“O nosso amor não teve querida
as coisas boas da vida
E foi melhor para você
E foi também melhor pra mim”

3º PMB – 1990 – Maysa

Maysa

Compositora de clássicos da canção romântica e intérprete de repertório eclético, ela se impôs como uma das personagens mais marcantes da música brasileira dos anos 1950 e 1960. Maysa Figueira Monjardim Matarazzo também foi uma mulher à frente de seu tempo, rompendo com os preconceitos da sociedade machista de sua época para despontar como artista inovadora e influente.

O talento para a música revelou-se ainda na adolescência: ela tinha 12 anos quando compôs “Adeus”, samba-canção que, oito anos depois, foi gravado no seu primeiro disco, Convite para ouvir Maysa. Lançado em 1956 e totalmente autoral, esse álbum também trazia músicas como “Marcada”, “Rindo de mim” e “Resposta”, enquanto o volume 2, editado dois anos depois, apresentava mais clássicos, como “Ouça”, “Meu mundo caiu” e “Quando vem a saudade”.

O impacto desses dois discos foi enorme, assim como o causado pelas suas primeiras apresentações no rádio e na TV. O sucesso popular e o reconhecimento da crítica (entre 1956 e 1958, acumulou troféus de revelação, melhor cantora, melhor letrista) abalaram seu casamento com um empresário de tradicional família paulistana. Obrigada a optar entre a carreira artística e o matrimônio, não pensou duas vezes. Pode parecer simples hoje, mas foi um escândalo na época, o que só aumentou a popularidade de Maysa, que, em 1958, virou a mais bem paga cantora do Brasil.

Consagrada por suas canções de fossa, em 1960, após trocar São Paulo pelo Rio, ela também flertou com a bossa nova, gravando nesse mesmo ano o álbum O barquinho, um marco no gênero. Nesse período, sua arte também começou a rodar o mundo. Em 1960, foi a primeira cantora brasileira a se apresentar no Japão, além de excursionar com frequência por diversos países da América Latina, pela Europa e pelos Estados Unidos (onde gravou o álbum Maysa sing songs before dawn). Sem fronteiras estilísticas, até o fim precoce, em um acidente de carro em janeiro de 1977, Maysa cantou de tudo: os clássicos compostos por ela própria, standards de Cole Porter, bossa nova, bolero ou chansons como “Ne me quitte pas”, de Jacques Brel.

“Vai lembrar que um dia existiu
Um alguém que só carinho pediu
E você fez questão de não dar
Fez questão de negar

Quando a lembrança
Com você for morar
E bem baixinho
De saudade você chorar

Vai lembrar que um dia existiu
Um alguém que só carinho pediu
E você fez questão de não dar
Fez questão de negar”